Discurso do deputado Waldemar Borges realizado durante Reunião Solene em homenagem ao Dr. Malaquias Batista Filho

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE PERNAMBUCO
GABINETE DO DEPUTADO WALDEMAR BORGES
19.02.2020

 

Senhor presidente, senhores deputados, senhoras deputadas, meus senhores, minhas senhoras, boa noite.

 

Em meados da década de 40 um pernambucano cunhou a frase que mais trágica e verdadeiramente refletia a condição subumana em que vivem milhões de pessoas espalhados por todo o mundo. Disse Josué de Castro, na sua “Geografia da Fome”, que “enquanto metade da humanidade não come, a outra metade não dorme, com medo da que não come”. Já a outro extraordinário conterrâneo, o professor Nelson Chaves, coube realizar o primeiro estudo sobre a desnutrição na nossa Zona da Mata, onde pôde denunciar a condição não menos sub humana a que são submetidos aqueles que precisam defender suas sobrevivências.

Tivessem a constatação de Josué e os dados revelados nas pesquisas de Nelson, recebido a devida atenção e mobilizado os recursos – de todas as ordens – sobretudo os que dependiam de determinação política – do conjunto da sociedade, talvez as gerações atuais se reportassem ao cenário trágico que eles apontam, apenas como uma triste e dolorosa página, de um passado longínquo e indesejado. Infelizmente não foi isso o que aconteceu. Estão aí, denunciando a permanência dessa tragédia ainda nos dias atuais, os cinco milhões de brasileiros – para ficarmos apenas em nosso país – que, segundo a ONU sobrevivem num patamar de escassez de alimentos e desnutrição, como solenemente os técnicos se referem à fome.

Pois bem, senhor presidente, meus senhores, minhas senhoras. Hoje estamos reunidos nesta Casa, num momento de grande privilégio, porque nos foi dada a oportunidade de ser porta voz do reconhecimento e do agradecimento a um grande humanista: Doutor Malaquias Batista Filho, que ao contrário dos tantos que receberam com indiferença a constatação de Josué e a denúncia de Nelson, tem dedicado sua vida à luta por uma saudável e plena evolução das pessoas, colocando a questão da segurança alimentar no centro do debate, como condição preliminar, para o homem poder viver e crescer, em toda sua plenitude. Professor, pesquisador, especialista em saúde pública, nosso homenageado é exemplo que inspira gerações de profissionais que, assim como ele, militam, com dedicação sacerdotal, no campo da saúde pública, no desenvolvimento humano e, portanto, na luta contra a fome.

Nascido em São Sebastião do Umbuzeiro, na região do Cariri Paraibano, o mais novo cidadão de Pernambuco vem de uma típica família de classe média nordestina. Seus pais, Malaquias Batista Feitosa e Sebastiana Fernandes Batista, tiveram doze filhos, e foram determinantes ao influenciarem na escolha que o primogênito fez por enveredar no campo da medicina. Das primeiras letras e operações matemáticas de tabuada no Sítio Pitombas, até as bancas da Universidade Federal da Paraíba, onde se formou, em 1961, Malaquias selou um pacto de compromisso com o desenvolvimento humano.

 

Inspirado nas já referidas obras de Nelson Chaves e Josué de Castro, ele atentou, no exercício da sua profissão, para os aspectos que extrapolavam o campo exclusivamente da medicina propriamente dita, e avançou na observação das abissais desigualdades sociais de uma região marcada historicamente por um modelo concentrador de tudo nas mãos de poucos: renda, terra, e o saúde, e também o conhecimento – fonte de poder desde sempre, e talvez o maior fator de produção desses tempos de revolução tecnológica e cientifica que vivemos. Malaquias é daqueles que usam o conhecimento adquirido nas bancas escolares e na prática profissional, como instrumento a ser usado a favor da superação dessas desigualdades.

 

E, como não poderia deixar acontecer com alguém de tão profunda sensibilidade e compromisso social, ao lado da sua formação acadêmica, ele também teve, desde muito jovem, uma consistente formação e militância política. Participou ativamente da União Estadual dos Estudantes, exercendo a função de secretário de saúde daquela entidade. Recém-formado, fez parte das históricas Ligas Camponesas em seu estado natal, a nossa vizinha e querida Paraíba. À época, também acumulava atividades profissionais na UFPB e no Serviço da Assistência Médica Domiciliar de Urgência, do governo paraibano. Em função do engajamento político, foi demitido dos seus empregos pelos golpistas que haviam usurpado o poder em 64, vendo-se obrigado a migrar para a capital pernambucana.

 

Chegando em nosso estado, especializou-se em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade Federal de Pernambuco no ano de 1965, onde continuou sua carreira como docente e desenvolveu expressiva produção acadêmica. Convidado em 74, foi ser professor visitante da Escola de Medicina da USP. Também recebeu convite e foi docente da Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio de Janeiro. De volta ao Recife, atuou, e ainda atua, como professor e pesquisador do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, o nosso IMIP.

 

Hoje, aos 85 anos de idade e quase 60 de atividade profissional, a extensa contribuição acadêmica do doutor Malaquias está representada em parte pelos 78 livros que o tem como autor, co-autor ou organizador; pelos 205 artigos técnicos que escreveu e foram publicados nos mais diversos idiomas; bem como por suas pesquisas, a exemplo da que constatou que 40% das crianças tinham déficit de estatura por conta de um processo crônico de desnutrição que começa desde a fase uterina, quando as mães também estão desnutridas e com carência de vitaminas essenciais para o bom desenvolvimento do bebê. Essa pesquisa apontou a necessidade de enriquecer a alimentação das crianças, acrescentando vitamina A ao leite e ferro às massas que consomem. Essa pesquisa, inclusive, embasou posterior determinação do Ministério da Saúde, que obrigou o enriquecimento com vitamina A de todo leite em pó desnatado produzido no país.

 

Tão extensa e expressiva produção acadêmica e científica, incluindo o estudo sobre os benefícios do consumo humano da raquete da palma, também rica em vitamina A, renderam inúmeras honrarias e reconhecimentos de várias ordens ao professor Malaquias. Foi convidado e participou como membro de Conselhos de Segurança Alimentar do Governo Federal, no governo Lula, e de vários organismos internacionais; é professor emérito de diversas universidades no país e, em torno de sua produção, já foram realizadas importantes palestras e mesmo documentários exibidos por emissoras de TV do Brasil.

 

Hoje, como disse no início dessas palavras, me cabe o privilégio, como parlamentar e, sobretudo, como cidadão, de ser o porta voz desta justa e necessária homenagem. Na verdade, estamos cumprindo apenas o ato de formalizar legalmente uma condição que o senhor, Dr. Malaquias, já havia conquistado, de fato, através do tanto que acrescentou, com sua inteligência, seus conhecimentos e seu compromisso social, ao povo pernambucano. O senhor que já se irmanava a outros profissionais de saúde pernambucanos, a exemplo de Dr. Fernando Figueira, Dra. Naíde Teodósio, Dr. Salomão Kelner, além dos já citados Josué de Castro e Nelson Chaves, que fizeram das suas atividades profissionais um testemunho de vida a favor da construção de um mundo melhor pra se viver, para todos viverem, a partir de hoje, também se ombreia a eles na condição de pernambucano de papel passado. Tenho certeza de que se estivessem aqui, estariam, como todos nós neste auditório, muito felizes nesta noite.
Muito obrigado.