PRONUNCIAMENTO DO DEPUTADO WALDEMAR BORGES REALIZADO DURANTE REUNIÃO SOLENE EM HOMENAGEM AOS 100 ANOS DA EDUCADORA RAQUEL CORREIA DE CRASTO (i.m.)

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE PERNAMBUCO

GABINETE DO DEPUTADO WALDEMAR BORGES

01.10.2019

 

Senhor presidente, senhores deputados, senhoras deputadas, meus senhores, minhas senhoras, boa noite.

 

Nos coube o privilégio, na noite de hoje, de simbolicamente darmos início a uma série de atividades comemorativas do centenário do nascimento de Raquel Correia de Crasto, ou apenas Dona Raquel, como a trato, eu e tantos, com carinho e respeito de ex-aluno. Esta Casa, plural por essência e, muitas vezes celeiro de grandes contradições, se une neste primeiro de outubro para reverenciar, à sua unanimidade, uma educadora que marcou seu tempo e tempos futuros, por defender e praticar o princípio da educação integral, colocando o desenvolvimento do senso crítico, do respeito ao próximo e suas diferenças, como base do lema “amar para compreender, compreender para educar”. Nessa perspectiva, a formação do saber é fruto de construção coletiva, onde há espaço, com destaque, para o aspecto afetivo-emocional da criança. Foi embasada nesses princípios que Dona Raquel dirigiu, por quarenta anos, o Instituto Capibaribe, a primeira escola do Recife considerada alternativa.

 

Nascida em 03 de outubro de 1919, no município de Vicência, dona Raquel ingressou em 1937 na FAFIRE, onde cursou pedagogia, especializando-se em orientação educacional. Em 42, foi selecionada entre as melhores alunas do curso e nomeada professora primária, pela Secretaria de Educação de Pernambuco, indo lecionar na Escola Rural Alberto Torres, em Tejipió. No ano seguinte, passou a trabalhar com crianças, na época, chamadas de excepcionais, na então Escola Aires Gama, atual Escola Especial Ulisses Pernambucano. Foi uma das fundadoras do Instituto Domingos Sávio, escola para deficientes auditivos, como também do Jardim de Infância do Colégio Arquidiocesano do Recife. Participou da primeira equipe de orientadores educacionais da Rede Oficial do Estado de Pernambuco e, paralelamente às suas atividades docentes, participou também da Juventude Universitária Católica – a JUC, movimento católico, reconhecido pela hierarquia da igreja, que se propunha a refletir sobre a realidade socioeconômica do país.

 

Em 1955, a convite daquele que viria ser a maior referência da educação brasileira no mundo – o professor Paulo Freire – e mais um grupo composto por Anita Paes Barreto, Lourdinha Paes Barreto, Elza Freire, Maria José Baltar, Pe. Daniel Lima, Itamar Vasconcelos, José Paulo Cavalcanti e outras tantas personalidades de pensamento avançado do Recife, Dona Raquel foi dirigir o Instituto Capibaribe, uma proposta de escola renovada, onde a criança fosse respeitada, compreendida e, sobretudo, estimulada a despertar sua capacidade de resolver problemas observando as particularidades de cada aluno e estimulando todos a aprofundarem as reflexões a respeito das causas que provocavam os problemas a serem enfrentados.

Durante 40 anos Dona Raquel esteve à frente do Instituto Capibaribe. Ao longo desse tempo, com devoção sacerdotal e muita simplicidade, fez do exercício da profissão a inspiração e referencial na vida de muita gente. Conseguiu, por exemplo, num momento difícil e radicalizado da vida nacional, em plena ditadura militar, garantir convivência respeitosa e fraterna entre filhos de pais que se encontravam em lados opostos da cena política da época. Ali, no Capibaribe, todos sentavam juntos e eram tratados de igual para igual, desde o lanche coletivo que dividiam, até a atenção que recebiam dos professores e demais profissionais da escola.

 

O espírito altruísta de dona Raquel e seu sentimento de solidariedade ao próximo foram marcas da coerência que guardava entre o entendimento que tinha do papel da educação e o seu relacionamento pessoal com todos os que a cercavam. Em Dona Raquel, as qualidades se encaixavam no caráter daqueles que carregam, em seu DNA, traços de quem nasceu para ser protagonista das melhores causas. Por trás de um semblante muitas vezes fechado, havia uma pessoa de um bom humor incomparável e possuidora das qualidades exigidas para enfrentar as adversidades que sua missão impunha. E não foram poucas às vezes em que, uma escola sem fins lucrativos como é o Capibaribe, viveu situações de aperto que pareciam instransponíveis. Usando a calma e a coragem, ambas em medidas bem dosadas, ela, ao lado da equipe que praticamente lhe acompanhou a vida toda, conseguia superar os obstáculos, um a um, e assim manter aceso, esse farol apontando sempre para o futuro, que é o nosso querido Capibaribe.

Meus senhores e minhas senhoras, já se vão 64 anos que esse projeto transformador sonhado por Paulo Freire e executado sob a liderança de Dona Raquel ao longo de quatro décadas vem sendo vanguarda no Recife, em Pernambuco e no Brasil.

 

Hoje, o sobrado da Rua das Graças, ontem a casa na Av. Dr. Malaquias e, no inicio, ainda, a casa na Av. Visconde de Suassuna. As paredes desses locais abrigam histórias que perpassam o tempo. São símbolos da capacidade de sonhar, de resistir, de persistir e de superar dificuldades, sem deixar que a chama que embala o sonho se apague.

 

É o legado deixado por Dona Raquel que estamos hoje aqui festejando. São os valores que moveram sua vida que viemos enaltecer nesta noite: respeito ao próximo; tolerância; abertura para o diálogo; construção coletiva das questões que interessam à coletividade; desprendimento e capacidade de se colocar no lugar do próximo. Pena que nem todos tiveram oportunidade de estudar em uma “escola tão pequena de valor material”, como diz seu hino, mas gigante em valores éticos e morais. Tivessem todos este privilégio, certamente não estaríamos vivendo em um mundo marcado pelo fomento ao ódio, pela intransigência nas suas formas mais radicalizadas; e o homem não seria tratado como principal inimigo do próprio homem. Não teríamos, com certeza, governantes fazendo apologia a armas e outros comemorando a morte.

 

Sem a presença física de Dona Raquel, sua equipe continua no comando da escola, mantendo o compromisso de promover uma educação de qualidade e reafirmando ideais de uma escola viva e de uma educação libertadora. Com os métodos alternativos que carrega desde a sua origem e o caráter vanguardista, que é a sua marca permanente, o Instituto Capibaribe continua sendo um exemplo de espaço pedagógico onde a formação do saber se confunde com a formação do cidadão, e ambas se complementam num convívio que promove exercício de cidadania, num permanente processo de aprendizado de construção da democracia que queremos ver um dia efetiva e culturalmente consolidada em nosso país.

 

É motivo de profunda lástima ver figuras de destaque e de mando político no país classificando o espaço do aprendizado – questionador por definição – como local de “balbúrdia”. A mesma lástima nos alcança quando enxergamos os que respondem pelo Ministério da Educação promoverem verdadeira “caça” a profissionais da área, tentando tolher a troca de ideias dentro das salas de aula. E mais aviltante ainda é ouvirmos a pregação de uma tal “escola sem partido”, como se alguém fosse a favor do aparelhamento partidário de qualquer escola. O que querem, na verdade aqueles que sofismam com esse tema, é uma escola sem reflexão, sem pensamento crítico e, portanto, sem capacidade de contribuir com as transformações urgentes que uma sociedade injusta e desigual exige que sejam feitas. O que querem é o anti-Paulo Freire, é o anti-Capibaribe.

 

Volto-me para Paulo Freire mais uma vez, quando nos ensinou que, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Certamente os que defendem o anti-Capibaribe nunca sentiram a liberdade que só a educação integral pode proporcionar. E oprimidos por sua ignorância, tentam, no papel de opressores, atacar os agentes de difusão do conhecimento e de cidadania.

 

Meus senhores e minhas senhoras: dentre as normas estabelecidas por dona Raquel, para o pleno funcionamento do Instituto Capibaribe, uma merece destaque. Ela falou o seguinte: “Nos alunos, espontaneidade. Nos professores, disponibilidade. Em tudo, simplicidade”. Que, como hoje, no centenário de Raquel Correia de Crasto, as próximas gerações continuem relembrando os valores e o legado deixado por ela. E que o Instituto Capibaribe, guardião de suas memórias e celeiro das novas gerações, continue sendo instrumento que a cada dia mais preserve este compromisso com a humanidade.

 

Viva Raquel Crasto, viva o Instituto Capibaribe – ou melhor, o Capiba, de todos nós!

Muito obrigado.

Boa noite!