Requerimento No 4295/2017

TEXTO COMPLETO

Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais,
que seja transcrito nos Anais desta Casa o artigo “O Brasil não conhece o
Brasil”, de autoria do professor Juliano Domingues, publicado no Jornal do
Commercio, edição nº 344, do dia 10 de dezembro de 2017.

JUSTIFICATIVA

A edição nº 344 do Jornal do Commercio, veiculada no último domingo, dia 10,
trouxe, no caderno Opinião, o artigo “O Brasil não conhece o Brasil”, de
autoria de Juliano Domingues, doutor em Ciência Política, com pós-doutorado em
comunicação e docente da Universidade Católica de Pernambuco.
Em seu artigo, Domingues dá destaque a uma pesquisa realizada em 38 países,
incluindo o Brasil, que trata do nível de percepção das pessoas e seu
conhecimento sobre as questões mais vinculadas ao dia-a-dia da sociedade, como
saúde, sistema carcerário e tecnologia. A partir desta ausculta, é estabelecido
um “ranking da ignorância”, no qual o Brasil ocupa um lamentável segundo lugar,
constatando que os brasileiros estão extremamente suscetíveis a boatarias e
manipulações.
A pesquisa revela uma verdade clara, que demonstra a fragilidade e imprecisão
que respalda a opinião pública de maneira geral. Para enfrentar tal situação,
Juliano sugere, com pertinência, que a reversão deste quadro se dará através da
apropriação e difusão do saber, ou seja, à medida que a sociedade vá conhecendo
a si mesmo, o espaço da manipulação tende a ser eliminado, e então poderemos
sair desta vala de obscurantismo e incompreensão em que infelizmente estamos
imersos.
Pela relevância das informações e o embasamento da sua leitura, sugiro aos meus

pares que aprovem a presente transcrição do referido artigo.
Segue abaixo o texto integral:
O Brasil não conhece o Brasil*
O brasileiro é, antes de tudo, um ignorante. É o que aponta o Índice da
Percepção Equivocada elaborado pelo instituto europeu Ipsos Mori divulgado esta
semana. Com base nesse índice, pode-se afirmar: somos presas fáceis em tempos
de pós-verdade.
A pesquisa “Perigos da Percepção” procura identificar o que as pessoas pensam
sobre a realidade. Em sua edição 2017, apresenta o saldo de 29 mil entrevistas
sobre temas do cotidiano em 38 países. Quanto à violência, por exemplo,
perguntou-se: “você acha que a taxa de homicídios no seu país é maior, menor ou
quase igual à de 2000?”. Há questões, ainda, sobre saúde, sistema carcerário e
tecnologia.
ɓachômetro” versus conhecimento. Ao confrontar as respostas com informações
de fontes seguras, identifica-se o quanto os entrevistados foram mais ou menos
precisos. O resultado é previsível. Enquanto os nórdicos estão no topo da
tabela, os sul-americanos estão mal posicionados. Entre esses, o pior é o
Brasil, segundo colocado no ranking da ignorância, atrás apenas da África do
Sul e à frente das Filipinas. As populações que mais conhecem seus países são a
sueca, a norueguesa e a dinamarquesa.
Outro resultado relevante: quanto mais conhecedora da realidade do seu país,
mais disposta está a população a colocar em xeque sua percepção. Em outras
palavras, os mais precisos em suas respostas são, também, aqueles que mais
desconfiam delas. Pode-se supor que esse dado revela uma lógica cientifica na
percepção do mundo ao redor, segundo a qual se deve suspeitar das convicções.
Os mais ignorantes, por outro lado, possuem uma crença medieval nas suas
respostas imprecisas.
Os dados sobre o Brasil preocupam. Explicitam de modo objetivo uma opinião
pública extremamente suscetível à manipulação. Sem conhecimento, é possível
acreditar nas mais esdrúxulas versões sobre diferentes assuntos. Esse é o
terreno fértil para a chamada pós-verdade, fenômeno caracterizado pela difusão
em escala de crenças falsas e boatos em detrimento do conhecimento baseado em
evidências.
Não por acaso, a disputa por poder tem sido, sobretudo, a competição pela
versão capaz de capturar a percepção das pessoas. Talvez, a chamada “assimetria
informacional” nunca tenha desempenhado papel tão decisivo em processos de
tomada de decisão. Contra o mal da ignorância, só há uma solução: o saber. O
Brasil precisa conhecer o Brasil.
(*: Juliano Domingues é doutor em Ciência Política com pós-doutorado em
Comunicação)