Requerimento 1985/2020

TEXTO COMPLETO

Requeremos a Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais, que seja formulado Voto de Pesar pelo falecimento de Evaldo Gomes Moura, conhecido como Naná da Kombi, ocorrido no último dia 03 de abril na cidade do Recife.

JUSTIFICATIVA

Evaldo Gomes de Moura, popularmente conhecido como Naná da Kombi, era figura ilustre no bairro do Poço da Panela, zona norte do Recife. Foi um dos fundadores e ativo colaborador da Biblioteca Comunitária do Poço, espaço dedicado a difusão de saberes e conhecimento.

Segundo amigos que privavam do convívio de Naná, seu lema era servir. Sempre disposto a ajudar quem quer que seja, de qualquer faixa social, Naná tinha um olhar especial para os mais carentes. Por anos, fez transporte escolar gratuito, levando as crianças da comunidade do Poço da Panela até a Escola Municipal Nilo Pereira, distante 2 quilômetros da comunidade.

No tradicional Bloco dos Barbas, Naná foi um dos protagonistas. Por dois anos consecutivos, foi eleito rei da troça.

Fanático pelo Santa Cruz Futebol Clube, Naná era um dos “torcedores símbolos” do time. Bastante assíduo no estádio, seu veículo servia de transporte para amigos e caroneiros que iam ao Arruda para acompanhar os jogos.

No dia 03 de abril, um dia antes de completar 53 anos de idade, Naná faleceu em decorrência de problemas cardíacos. Deixa a viúva Tereza Almeida e a filha Rafaela, bem como uma legião de amigos e admiradores.

Para contar mais sobre a história de Naná, nos valemos do texto do poeta e jornalista Samarone Lima, amigo pessoal do homenageado, divulgado amplamente nas redes sociais.

 

“O telefonema, raro nestes tempos de zap, foi do amigo Gerrá, informando que Naná tinha morrido. Eu estava num posto de gasolina, com minha companheira Aura, comuniquei o fato e ela começou a chorar, com uma profunda tristeza.

Ela conheceu Naná há poucos meses, em alguns de nossos encontros, no Poço da Panela, e se apaixonou pelo meu velho amigo, um irmão que ganhei da vida. Depois, enxugou as lágrimas, se recompôs e perguntou como eu estava.

Não consegui dizer. Senti um vazio sem palavras, uma vontade de chorar sem lágrimas, como se algo meu tivesse morrido também, mas continuava vivo. Liguei para a ex-companheira da Naná, Teresa, que estava no hospital. Disse que ele tinha morrido do coração. O enterro vai acontecer neste dia 4 de abril, quando ele completaria 53 anos.

Várias horas já se passaram, e não consigo saber o que sinto. Mas o nome não é dor. Talvez pelo motivo que mais me faz sentir que a vida vale à pena – ter encontrado pessoas que tenho encontrando, nestes caminhos e descaminhos.

Vinte anos da minha vida (dos 30 aos 50), foram atravessados por Naná. Tinha chegado de São Paulo em 2000 e fui morar no Poço da Panela. Nas primeiras idas à venda de Seu Vital, conheci Naná.

Há amigos que se amam à primeira vista. Foi o caso. Com sua incansável Kombi, Naná trabalhava e ajudava toda a comunidade, especialmente a que vive à beira do rio. Um líder comunitário que nunca precisou ser eleito. Um líder espiritual e festeiro, da algazarra e da boa conversa.

Uma dessas raras pessoas com um profundo senso de partilha, de juntar pessoas, de ajudar. Um olhar sempre para o próximo, mesmo quando o próximo não está próximo. Podia ser a pessoa mais terrível, que Naná iria buscar a fagulha do que esta pessoa tivesse de bom. E achava.

Se fosse um apóstolo, seria o preferido de Cristo. De longe, o mais divertido. Nesses vinte anos, fizemos de tudo, conversamos tudo, desabafamos tudo. Numa de nossas muitas conversas, ele contou de um grave acidente, há muitos anos, em que ficou entre a vida e a morte. Passou meses no Hospital da Restauração, e sobreviveu.

“Bicho, depois disso, eu vivo cada dia como se fosse o último”, me disse várias vezes. Nos últimos meses, o velho amigo, já com vários problemas de saúde, mandou ver nas biritas. Nos encontramos várias vezes, nunca toquei no assunto. Era uma decisão dele.

Às vezes, somos absolutamente ridículos com nossa decisão de achar o que é melhor para a vida dos outros, mesmo que o outro seja alguém que amamos.

Outro dia, fui ao Poço com apenas um objetivo – para tomar umas cervejas com ele. Fui ao bar de Baixa, onde estava sempre, com os amigos. Era um domingo e conversamos longamente sobre tudo. Em algum momento, olhei para Naná e senti o profundo amor que tinha por ele.

Sim, o velho Montanha, como sempre o chamei, parecia se despedir. Ali, me deu uma vontade imensa de chorar.

Naná, que abriu sua incansável Kombi para levar a torcida do Santa para os estádios, abriu também para levar a criançada do Poço para a escola.

Naná, que começou a falar em abrir uma Biblioteca Comunitária no Poço, e ela se tornou realidade, e funciona até hoje.

Naná. Até o apelido dele, é um acalanto.

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É isso, meu irmão. Poderia passar muitas horas escrevendo sobre tua mansidão, tua capacidade de compreender profundamente o outro, sobre tudo o que você fez para tanta gente, ao longo da vida. Mas seria pouco.

Vou levar comigo, sempre, esses vinte anos de um vínculo profundo e pouco falado, que é o amor dos homens. Fico com esta tua última foto, no Poço da Panela.

Eu disse que tu estava com uma cara de Al Capone. “Tô mesmo, bicho? Então tô bem na fita”, foi a resposta, seguida de uma boa gargalhada e uma alisada na barba. Te amo, meu velho, estás vivo em mim.”

 

Perante o exposto, solicito aos meus pares a aprovação deste requerimento.