Requerimento 537/2019

 

 

TEXTO COMPLETO

Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais, que seja transcrito nos Anais desta Casa o artigo “A ciranda do Deputado”, de autoria do jornalista Marcus Prado, publicado na edição de 16 de maio do Diário de Pernambuco.

JUSTIFICATIVA

A edição do Diário de Pernambuco, publicada no dia 16 de maio de 2019 traz, abrigada no caderno Opinião, um artigo assinado por Marcus Prado, conhecido e conceituado jornalista pernambucano.

Intitulado de “A ciranda do Deputado”, Marcus escreve seu texto a partir da solenidade ocorrida no Palácio do Campo das Princesas, em que o governador Paulo Câmara sancionou a Lei que institui o dia 10 de maio como Dia Estadual da Ciranda (Lei Estadual nº 16.567, de 10 de maio de 2019).

A Lei, que é de nossa autoria, foi fruto de uma grande construção coletiva, que envolveu técnicos, cirandeiros e brincantes. A designação deste dia é um reconhecimento para um gênero que é democrático, participativo e inclusivo. 10 de maio passa a ser um data de celebração e de resistência.

Nesses tempos em que o preconceito, a intolerância e o ódio tem sido disseminados, inclusive por pessoas de relevante projeção no cenário político brasileiro, o destaque dado a uma dança onde todos, independente de cor, sexo, raça gênero, dãos as mãos para rodar num ritmo que lembra o balanço do mar, soa como uma afirmação de valores que precisam ser enaltecidos nos atuais tempos que vivemos.

Nesta ocasião, e através deste requerimento agradeço as palavras de Prado, que escreveu este artigo baseado em meu pronunciamento. Entendo que ele aprofundou e, com muita pertinência, ampliou muitas vezes a dimensão simbólica do nosso “cirandar”.

Perante o exposto, solicito aos meus pares a aprovação desta transcrição.

 

A ciranda do deputado

Marcus Prado*

Convidado para assistir à cerimônia no Palácio do Campo das Princesas de assinatura da Lei que cria o Dia Estadual da Ciranda, 10 de maio, sancionada pelo governador Paulo Câmara, fui surpreendido com o discurso do deputado Waldemar Borges, autor do projeto aprovado na Assembleia Legislativa Estadual. De início, quero dizer que o parlamentar não me conhece nem sabe quem eu sou. Isto me deixa muito à vontade para extrair de sua fala um elogio e uma, talvez, grande receita para quem pretende, honestamente, contribuir para eliminar os grandes erros políticos de hoje e do passado deste país, os crimes contra o Estado e a ordem política e social. Ele disse que chegou a hora de todos seguirem o exemplo fraterno da ciranda, que precisamos todos darmos as mãos nesta hora agônica da vida brasileira. A grande Ciranda do Bem que o Brasil exige de todos, digo eu, não pode parar, porque enquanto houver corrupção neste País das Malas Pretas, dos alvarás, das concessões, do “jeitinho”; enquanto persistirem, vergonhosamente, o mal social, coletivo e do governo o povo não deve deixar de abrir o grande círculo da ciranda cívica. Uma ciranda para extirpar o câncer da evasão fiscal, da corrupção, da fraude, das gigantescas obras superfaturadas e da lavagem de dinheiro. O sigilo bancário facilita delitos financeiros e fluxos ilícitos, o que inclui práticas como a lavagem de dinheiro e evasão fiscal, além de impulsionar o mercado financeiro offshore. Uma ciranda com o foco principal no suborno. Tanto na esfera pública como no setor privado é um câncer para qualquer sistema. Uma ciranda que exija, todos de mãos dadas, o ensino compulsório no país e aumente o nível geral de educação da população. Se uma pessoa não tem acesso à educação, ela não tem condições nem de compreender e, muito menos, de fiscalizar o sistema. Uma sociedade se constrói não a partir do topo, mas a partir da base da população.

Portanto, é preciso oferecer uma boa educação a todas as camadas da sociedade. A situação pode, sim, ser mudada. Desde que haja a união coletiva das mãos dadas, pois nossa manifestação, quando multiplicada, como nos passos da ciranda, poderá riscar da nação esse “carnaval” de escândalos políticos que se repetem impunemente ao longo de muitas décadas. Uma ciranda como outra muita parecida, a dos Mykonos dos gregos. A iconografia soube empregar inteligentemente a tradição da retórica greco-romana dos seus códigos gestuais. Mostra vultos humanos ao chegarem de mãos dadas na ágora, no Senado, em reuniões particulares e até nas festas públicas. Esses gestos eram de amplo conhecimento na população, e, portanto, quase todos compreendiam o seu significado, infelizmente perdido no tempo. É precisamente por isso que esse repertório gestual era usado: para reforçar e tornar ainda mais patente a noção de fraternidade que existia entre eles. Na atualidade, o símbolo das mãos dadas, usado tanto por judeus, como por islâmicos, esse gesto, apesar de parecer pequeno, diz muito, tem sido utilizado pelos defensores da paz no Oriente Médio, como uma forma de mobilização pelo fim dos conflitos, nessa região.

Infelizmente, no Brasil de hoje, apenas entre os brincantes da ciranda é que vemos as mãos dadas, como disse o deputado pernambucano. Temos a impressão de que moramos num livro de Kafka com trechos do Processo, do Castelo e da Metamorfose. Mas, é importante que as mãos estejam firmes, todos de olho no horizonte das nossas grandes esperanças e dos nossos sonhos mais almejados. Vamos, juntos, apoiar os valores altamente simbólicos e políticos da Ciranda, e festejar o seu dia agora oficializado em Pernambuco.

(*Jornalista)