Sessão Solene em homenagem aos 200 anos de Independência da República da Venezuela

Senhoras deputadas,

Senhores deputados,

Meus senhores e minhas senhoras.

 

 

As nações se fazem e se moldam aos movimentos irredentos, aos sonhos e às lutas que seus filhos lhes dedicam. O movimento de ideias que se desenvolveu à época do chamado Século das Luzes,  desencadeou um vigoroso processo de lutas libertárias nas colônias espanholas. Tão pujante e forte que, pelas mãos de personagens até hoje insuperáveis na dedicação à causa da emancipação humana, temos a dimensão das conquistas alcançadas e do imenso patrimônio que representa para seus povos o significado da palavra independência – conceito primeiro de liberdade.

 

Hoje, nos reunimos nesta Assembleia para festejar o bicentenário da independência da Venezuela, ocorrida em 5 de julho de 1811. Assim, como todos os povos que se rebelaram contra a opressão colonial, o venezuelano também percorreu longo caminho para romper o domínio que lhe fora imposto desde meados do século XV, quando Colombo aportou na costa daquele país pela primeira vez.

 

A partir de então, começa a ser construída uma história de resistência, marcada pelo heroísmo, muitas vezes anônimo, de homens e mulheres que enfrentaram com sangue e abnegação os grilhões dos colonizadores, rompendo as correntes que impediam a superação da tirania que os submetia à condição de dominados.

 

Foi longa e árdua a trajetória que levou a Venezuela ao 5 de julho de 1811. Da mesma forma, também não foi pacífica a consolidação da independência conquistada naquela data. Antes, já os negros e mestiços de Coro, ainda em 1795, precisaram erguer a voz para ser ouvido um dos primeiros gritos dos oprimidos que ecoaram no solo venezuelano. Sucedendo essa rebelião, outros segmentos animaram-se a reagir, e assim tivemos, em 1806, amanifestação que ficou conhecida como a Chamada de Miranda.

 

 

 

Se a declaração da independência foi precedida por manifestações como as que citamos, a sua consolidação foi marcada pela violenta reação das forças ligadas ao império. A junta governativa, formada por Cristóbal Mendoza, Juan de Escalona e Baltazar Padrón, teve que enfrentar, num primeiro momento, os que não aceitavam a vitória da colônia, e, assim, a Venezuela se viu mergulhada em sucessivas batalhas, como as de Guyana, de Margarita e de Carabobo, entre 1817 e 1821.

 

É nessa rica e complexa quadra histórica da vida venezuelana que se destaca, na defesa da embrionária e ainda instável independência recém-conquistada, o general Simón Bolívar. Inicialmente convocando Francisco de Miranda para assumir o comando da nova república, para, em seguida, detê-lo e impedir sua fuga ao Reino Unido. Miranda, num controverso episódio da história venezuelana, foi tido, por alguns, como traidor e entregue, preso, aos espanhóis. Bolívar, por sua vez, exilou-se na Colômbia, retornando em 1813, aclamado pelo povo para assumir os destinos do seu País. Os conflitos, no entanto, estenderam-se ainda por quase uma década, até o começo dos anos 20.

 

A partir desses episódios, exatamente em 1824, Simón Bolívar marchou para o Peru, iniciando, de forma objetiva o seu caminho de solidariedade e luta pela independência dos povos sul-americanos. Visionário das causas libertárias, o herói das Américas, símbolo maior do sonho de uma América livre e soberana, nos ensinava, com visão ainda hoje contemporânea, que “o novo mundo deve estar constituído por nações livres e independentes, unidas entre si por um corpo de leis em comum que regulem seus relacionamentos externos”. Nessa frase, pode-se concluir que ele foi um homem à frente do seu tempo, de idéias verdadeiramente contemporâneas do futuro.

 

A defesa de nações livres era, certamente, a bandeira alçada com maior fervor pelo General. Sem a liberdade não seria possível a conquista de qualquer outro objetivo. Por isso, ainda nos ensinava que “somente a democracia, no meu conceito, é suscetível de uma liberdade absoluta”, vinculando a ideia de um governo verdadeiramente democrático, não apenas à existência de um arcabouço institucional que permita a expressão formal da vontade popular, mas, sobretudo, que contemple um projeto econômico inclusivo e emancipador.

 

Foram certamente o vanguardismo das suas ideias que o aproximou de um outro cidadão do mundo, o general Abreu e Lima.  Igualmente comprometido com a construção de uma sociedade livre e justa, Abreu e Lima nasceu aqui, no Recife, no nosso Delta do Capibaribe, e, antes mesmo de ombrear-se a Bolívar, já havia sido herdeiro da bravura dos que fizeram a revolução pernambucana de 1817, uma das mais belas páginas jamais escritas por uma gente que pioneiramente bradou pela independência e proclamação da república no solo brasileiro.

 

A participação efetiva de Abreu e Lima nas batalhas pela libertação da Venezuela e Colômbia se deu a partir de 1818, quando se viu obrigado a sair do Brasil, após a execução de seu pai, o Padre Roma, um dos principais protagonistas da Revolução Pernambucana. Sendo ainda um jovem militar, a execução do pai, nessas condições, sepultava-lhe a carreira no Brasil. Vítima de implacável perseguição dos poderosos, foi preso e recolhido por alguns meses ao cárcere em Fernando de Noronha. De lá, refugiou-se nos Estados Unidos, de onde saiu para se incorporar às tropas de Bolívar com a patente de capitão,  tendo sido promovido a general e alcançado o posto de chefe do estado-maior do exército libertador. Hoje, Abreu e Lima é considerado um dos heróis desse País irmão que nos reúne esta noite nesta Casa.

 

De volta ao Brasil, teve sua patente reconhecida pelo Exército brasileiro, quando de sua reintegração às forças nacionais. Como alguns dos ícones de nossa história, foi perseguido até o fim e, em função de inaceitável reação do clero local, foi proibido, embora cristão, de ser enterrado no cemitério local de Santo Amaro. Seu corpo foi então sepultado no Cemitério dos Ingleses, onde seu mausoléu encontra-se até os dias atuais. Do Governo da Venezuela, Abreu e Lima tem recebido inúmeras manifestações de reconhecimento por sua atuação marcante, a exemplo do busto que se encontra na Praça General José Ignácio de Abreu e Lima, na Avenida Cruz Cabugá, em frente ao Mercado de Santo Amaro.

Hoje, portanto, senhores e senhoras, não estamos aqui comemorando apenas o bicentenário da independência venezuelana, o que, por si, já seria motivo bastante para o nosso regozijo. Mais que isso, estamos festejando um abraço, que vem de longa data, entre duas nações que compartilharam, e continuam a compartilhar, suas lutas, seus sonhos e até seus heróis. Um abraço revigorado nos últimos anos, pelas ações conjuntas do ex-presidente Lula e do presidente Hugo Chávez, defensores do fortalecimento dos blocos políticos e econômicos capazes de unir países tidos como periféricos, mas que começam a jogar papéis crescentemente centrais no contexto de um mundo globalizado, onde ganha quem mais souber integrar interesses comuns e estabelecer suas pautas, com independência e soberania frente às grandes economias planetárias.

 

Foi isso o que Lula e Chaves começaram a fazer, reaproximando polos que, por contingências históricas, andaram se distanciando ao longo de um tempo que está sendo recuperado. Tudo e todos temos a ganhar com o estreitamente da relação Brasil-Venezuela. Seja no campo econômico, ou no cultural, o fato é que precisamos revigorar as raízes históricas que nos unem para, identificando as vantagens hoje postas, construirmos um futuro à altura dos sonhos e sacrifícios que em nome da verdadeira emancipação dos nossos povos, tantos compatriotas brasileiros e venezuelanos, dedicaram o melhor de suas vidas.

 

Viva o povo venezuelano. Viva o povo brasileiro. Viva a Venezuela nesses duzentos anos de sua independência!

 

Discurso do líder do Governo, deputado Waldemar Borges