Requerimento No 2513/2016

TEXTO COMPLETO

Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais,
que seja transcrito nos Anais desta Casa o artigo de opinião “Cometa Camilo”,
publicado na edição de 18 de outubro de 2016 do Jornal do Commercio.

JUSTIFICATIVA

Fernando Dourado Filho, escritor da melhor categoria, em artigo publicado no
Jornal do Commercio, do dia 18 de outubro passado, nos brindou com um belíssimo
depoimento a respeito do nosso querido e inesquecível Camilo. Um cometa, na sua
linguagem poética, que deixou um rastro de luz por onde passou ao longo dessa
sua breve trajetória de vida. Através de um texto de grande beleza, preciso e
profundo, Fernando traduz em seu testemunho o sentimento de todos os que
tivemos o privilégio de ter recebido o calor e o clarão dessa luz.

E para que as próximas gerações tomem conhecimento, também dessa forma, do
valor e do significado da vida de Camilo, bem como do tamanho da falta que ele
vai fazer, tomo a iniciativa de requerer, para que fique registrado nos Anais
dessa Casa, a transcrição do artigo que segue anexado.

“Cometa Camilo”
FERNANDO DOURADO FILHO
Quem o conheceu jamais esquecerá o sorriso que, de tão luminoso, acusava sua
bela presença à distância. Quer nos encontrássemos em restaurantes ou
aeroportos, lá vinha Camilo Simões com um abraço viril e a palavra bem-humorada
de sempre: “E aí, rapaz, qual a próxima viagem?”. Ou então, se saía com uma
tirada irreverente e intimista: “Em que fase estás? Autista ou social?” -
fórmula que ele tinha cunhado para aludir a meus estados de espírito. “Cara, se
for pra ver jogo do Sport, estou autista”. E ríamos com vontade, relembrando os
tempos em que éramos mais próximos, quando eu namorei com Marta Lima, sua mãe.
Foi inverossímil e dramática a noticia que me chegou do Recife na madrugada da
segunda-feira, aqui em Lisboa. Conforta saber que cada um de nós levará um
Camilo todo seu no coração, pois, embora único, ele sabia ser plural como só os
muito privilegiados conseguem ser. Era como se aquele sorriso tudo pudesse. Ao
relembrá-lo, me virá o companheiro que se afeiçoou ao Bar do Léo em São Paulo.
Jamais esquecerei o secretário vocacionado e vibrante, cujos olhos reluziam
quando falava dos planos para o Recife. Entesourarei o rapaz compenetrado que
se cuidava com rigor e cuja sensibilidade extrapolava quaisquer limites
visíveis. Com a morte de Camilo, perde a geração dele um líder moderno. Perdem
seus descendentes, que não terão no exemplo vivo do pai um amálgama tão bem
sucedido de vontade e doçura. Perde nossa geração, a dos que hoje bordejam os
60, pois ele nos lembrava que, contra todas as evidências, palpita vida
inteligente e solidária, onde só vemos jovens ególatras. Perde, sobretudo,
Marta Lima, o miolo dessa constelação virtuosa, toda feita de afetos genuínos,
de verdade e lealdade a um planeta de amigos que lhe serão sempre devotados.
Nesse momento de recolhimento, destaco que seu carisma não conhecia fronteiras.
Quando foi fazer intercâmbio no Alabama, logo se viu “adotado” por John, um
sulista boa praça que se tomou figura presente na vida dele e de Rebeca, num
raro caso em que o efêmero virou perene. Recentemente, li nos olhos de Marta a
alegria no dia em que ele a mandou esquecer a agenda e tirou do bolso as
passagens pala irem à Argentina. Que os irmãos – Bruna, João e Chico –possam um
dia recuperar a capacidade de sorrir. Ainda que não seja por ter testemunhado
de perto esse esplendor de pessoa que riscou os céus por três décadas em forma
de cometa. O cometa Camilo.