Pronunciamento em sessão de entrega de título de cidadão pernambucano à Ruy Pereira

05.11.2014

Deputado Adalto Santos, que preside esta solenidade,
Sra. Ana Brito, esposa do homenageado,
Eliza, Bruno e Arthur, filhos de Ruy Pereira,
Prefeito em Exercício, Luciano Siqueira,
Senhoras e Senhores,

Hoje, ao entregarmos este Título de Cidadão de Pernambuco, estamos, na verdade, apenas formalizando uma condição já conquistada, de fato, pelo homenageado. Nascido na Paraíba, onde formou-se em medicina, Dr. Ruy Pereira dos Santos adotou nosso Estado, construindo aqui uma trajetória profissional de dedicação, compromisso e solidariedade social merecedora do reconhecimento e gratidão de todos os pernambucanos, em todas as épocas.

Não foi sem grandes dificuldades que esse filho de um casal constituído por uma agricultora – Dona Maria Lalá da Costa – e um sapateiro (militante do Partido Comunista Brasileiro) – Sr. José Pereira dos Santos – conseguiu se formar em medicina, na Universidade Federal da Paraíba e venceu obstáculos que pareciam intransponíveis, até chegar ao Recife em 1979, quando foi aprovado por concurso para professor da Universidade Federal de Pernambuco, no Departamento de Medicina Tropical.

No Recife, seu desempenho foi tão destacado como professor e pesquisador – desenvolvendo pesquisas e publicando vários artigos científicos sobre endemias rurais – que Ruy foi convidado, no Governo da Nova República e por indicação dos órgãos de classe, para Diretor Regional da Fundação SESP (atual Fundação Nacional de Saúde – FUNASA), cargo que ocupou de 1985 até 1989.

À frente dessa Fundação, nosso homenageado, ao passo em que cuidava da rede sanitária, desenvolveu projetos pioneiros e de grande importância para a saúde pública, beneficiando a vida de milhares de pernambucanos e pernambucanas. Foi assim, por exemplo, quando implantou programas, como o de saúde da mulher, o da criança e do adulto. Foi assim também, como quando transformou a Unidade Mista da cidade de Palmares em Hospital Regional Universitário e ali inaugurou a primeira residência médica de enfermagem e de nutrição do interior de Pernambuco, da mesma forma como pioneiramente implantou um Hemocentro e Banco de Leite Humano fora da capital do Estado.

Foi Ruy quem implantou o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), iniciativa adotada como modelo pelo Ministério da Saúde, em todo o País. Implantou também o primeiro núcleo de assistência integral médico-odontológica em assentamentos da reforma agrária, na cidade de Petrolina.

Na área de saneamento, interiorizou o sistema de esgotamento condominial em Palmares e Catende, fazendo com que a Fundação SESP passasse a adotá-lo, nacionalmente, em comunidades com mais de 50 residências. Ainda na SESP, implantou sistemas de abastecimento d´água em mais de 30 comunidades do interior de Pernambuco.

Outra ação de grande envergadura foi a construção das barragens de Gameleira e da adutora e barragem de Ribeirão, na zona da mata. Essas iniciativas enfrentaram e diminuíram expressivamente um dos mais graves problemas que vitimavam as populações daquela região: o do abastecimento d´água.

Com tanta vivência e tantos compromissos voltados para as populações mais carentes, Ruy Pereira enxergou, ao lado de outros profissionais, a necessidade de que o Curso de Saúde Pública, fosse retomado e, em 1986, participou da fundação do NESC (Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva),
viabilizando a recuperação de sua sede em uma área do Hospital Pedro II.

Em 1990, Ruy foi convocado pelo governador Carlos Wilson para dirigir a V Diretoria Regional de Saúde, com sede em Garanhuns, no agreste pernambucano, oportunidade em que, mais uma vez, fez justiça à confiança depositada no seu trabalho. À frente daquela missão, recuperou a rede de saúde daquela regional e implantou e equipou a maternidade, a emergência, o hemocentro e o Centro de Prevenção do Câncer Ginecológico, bem como a UTI, do Hospital Regional Dom Moura. Além disso, também construiu e recuperou vários centros de saúde nas cidades de Itaiba, Lajedo, Saloá, Parabatana, Águas Belas, Calçados, São João, e recuperou o Hospital de Bom Conselho.

Entre janeiro de 1993 e maio de 1996, ele assumiu o cargo de Secretário Adjunto de Saúde do Recife, inaugurando um novo tempo na gestão de saúde pública na nossa Capital. Dentre as ações mais relevantes daquela época, estão a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e os Postos de Saúde da Família; da mesma forma, foram criados seis distritos sanitários – permitindo a descentralização das ações de saúde e, portanto, uma maior participação popular no fortalecimento do Sistema Único de Saúde.

Foi na sua passagem pela Prefeitura do Recife, ao lado do então secretário Guilherme Robalinho, que todas unidades sanitárias instaladas na capital foram municipalizadas e foi criada a diretoria de vigilância à saúde e de vigilância ambiental, com a municipalização das ações de controle e prevenção das grandes endemias, a exemplo da implantação do programa de controle da filariose e da dengue. Data também daquele período, a implantação do programa de atendimento de urgência pré-hospitalar (SOS-Recife), precursor do SAMU, bem como o laboratório municipal de saúde pública do Recife.

Na década de 90, envereda pela política de mandato. Eleito vereador em Serra Negra do Norte, no Rio Grande do Norte, em outubro de 1992, ele acumulou o cargo eletivo com o de secretário adjunto de Saúde do Recife. As reuniões da Câmara aconteciam nos finais de semana, o que tornou possível a compatibilização do mandato com a Secretaria Adjunta de Saúde do Recife. Mas em 96, exonerou-se da PCR e foi disputar a Prefeitura de Serra Negra. Vencido o pleito, exerceu o mandato de prefeito daquele município até o ano 2000, quando foi convidado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para dirigir programas na área de Saneamento, administrando o Projeto Alvorada, no Estado de Pernambuco, de janeiro de 2001 a maio de 2002.

Senhor Presidente, senhores deputados, meus senhores mnhas senhoras. É com honra que concedo o Título de Cidadão, em memória, a uma pessoa como Ruy Pereira: um médico, infectologista, sanitarista, professor universitário, gestor público, mas, principalmente, um menino que nasceu miserável, sertanejo, nordestino e morreu tendo ajudado tantos outros, como ele, a deixar de serem miseráveis para serem mais sertanejos e nordestinos do que nunca.

Hoje, Ruy se torna, oficialmente, pernambucano. E isso é apenas fazer justiça. Além da extensa folha de serviços prestados ao Estado, parte da qual acabei de relatar, aqui ele casou com Ana Brito, companheira de todas as horas, e teve três filhos: Bruno, Eliza e Artur. Aqui também quis o destino que ele fosse vítima do trágico acidente que o levou de nós. E Aqui, por fim, ele está enterrado.

Ao homenagearmos Ruy Pereira, estamos, de certa forma, homenageando os valores que sempre pautaram a sua existência: a luta em defesa do coletivo, com ética, honestidade e senso de justiça. Por tudo o que construiu em terras pernambucanas sob a inspiração desses valores, Pernambuco lhe diz, Ruy, muito obrigado.

*Pronunciamento do deputado Waldemar Borges durante a entrega do Título Honorífico de Cidadão Pernambucano, post mortem, ao médico Ruy Pereira dos Santos.