Requerimento Nº 1091/2015
Requerimento Nº 1091/2015
Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais,
que seja transcrito nos Anais desta Casa o artigo “O quadro que Chagall não
pintou”, do escritor Ronaldo Correia de Brito, publicado na Revista Continente,
ed. 176, de agosto de 2015.
Justificativa
A edição 176 da Revista Continente, publicada no mês de agosto de 2015, trás um
artigo assinado por Ronaldo Correia de Brito, escritor, médico e dramaturgo
brasileiro. O quadro que Chagall não pintou relata, a partir de situações
vividas pelo escritor, o ambiente acolhedor, diversificado e democrático das
Granjas Sajutá e São Saruê, no município de Carpina, pertencentes ao Sr. Renato
da Cunha Antunes e Dona Maria de Lourdes de Cerqueira Antunes, meus avós, com
os quais vivi boa parte da minha vida e a quem devo muito pela formação que
recebi.
O texto, a seguir, remonta as memórias com toda emoção e sensibilidade que é
peculiar a Ronaldo.
O quadro que Chagall não pintou*
Não me lembro se foi na Granja Sajutá ou se foi na São Saruê, em Carpina. Com o
tempo, as certezas tornam-se nebulosas e perdem o significado. Sei que era
1976, porque nesse ano ingressei para a residência médica do Hospital Getúlio
Vargas, e se comemorava a noite de São João. Avelina fora convidada por
Bernadete Antunes e me levou junto. Arrastei o nosso professor de inglês, um
estudante de medicina, que por sua vez levou a namorada. Apenas no Nordeste do
Brasil é possível esse abuso de hospitalidade.
No terreiro da granja, uma fogueira acesa, bandeirinhas, jarros com flores,
mesas cobertas de panos de chita e muita comida, o que se possa imaginar de bom
e melhor. Os manjares, que antes se apreciavam apenas no ciclo junino, nas
festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. Canjica, pamonha, pé de moleque,
bolo de milho, grude, pamonha de forno, milho cozido e assado… quanto
exagero! Mas todos na família de Seu Renato e Dona Lourdinha pareciam malucos
por comida. Encher a barriga dos convidados e fartá-los até a regurgitação era
lei sagrada, a mais alta expressão de nobreza e hospitalidade.
Pairando sobre a neblina e os risos festivos, o barulho de fogos e do trio pé
de serra, a sanfona subindo e desafinando na mesma proporção em que o álcool
ascendia à cabeça do sanfoneiro. Calado e solitário, no lugar de observador, o
camarote de voyeur que procura sentir com os olhos, o lápis e a caderneta
sempre ao alcance da mão, eu me divertia ao meu modo.
Tentavam me arrastar para a quadrilha, cheia de dançarinos embriagados,
atrapalhando as evoluções. Alguns já buscavam cadeiras, poltronas nos terraços,
se acomodavam nos degraus das escadas ou no próprio chão. As mães deitavam as
crianças em camas e berços, na casa-grande ou nos seus anexos. Convidados se
despediam, cobrando a retribuição da visita. Abraços, tapas nas costas,
lembranças, voltem sempre, a casa é de vocês, nesse ano foi ainda melhor do que
no ano passado, impossível, foi sim, não teve balão, mas o trio era afinado…
Desafinado mesmo estava o conviva bêbado. Perguntavam se ia dirigir naquele
grau, nem um quatro era capaz de fazer.
Oxe! Faço até um cinco.
E tentava cruzar a perna esquerda sobre a direita, mantendo-se de pé, sem
apoio. Caía para os lados, precisando ajuda dos amigos para não beijar o chão.
Risos, um recomeço de festa. Estou bom, insistia o bêbado na voz trôpega, as
palavras aos tombos, o hálito vindo das profundezas de um inferno estomacal.
Aconselhavam dez remédios ao mesmo tempo, traziam café forte da cozinha e o
amigo ia ficando até o dia amanhecer, quando se entregava ao sono, numa cama ou
num colchão improvisado.
Lá para as tantas, a fogueira já queimara boa parte da lenha, os copos expunham
restos e a comida murchara, sem sedução. As conversas descambavam em
declarações de afeto, pequenas desavenças, choros, saudades do filho morto num
acidente de carro, reclamações contra os que faltaram à festa, como se já não
houvesse convidados de sobra. Se faltavam alguns parentes legítimos, excediam
os putativos, os agregados bem ao estilo das famílias de passado canavieiro.
A granja também possuía capela e sacerdote, padre de quarto reservado, lugar
garantido à mesa e conversa em sala. Amigo, conselheiro, religioso formado no
discurso e na prática da igreja progressista. Celebrava o sagrado e o profano
de todos os rituais da família: benzeduras, bodas, casamentos, batizados e
recomendação das almas que se encantavam.
Sem sair de perto da mesa de comilanças, eu lembrava um poema de Ascenso
Ferreira. Reforçava minha impressão da casa-grande dos Cerqueira Antunes, a boa
casa pernambucana, de saudosa memória. Entrei no mundo das granjas Sajutá e São
Saruê com minha esposa Avelina, e fui dando entrada aos filhos Joaquim, Isabel
e Tomás, por ordem de nascimentos. Telefonava na maior confiança e pedia:
Posso passar o final de semana com vocês?
Nunca escutei um não, e nunca um sim que me parecesse não sincero. Encontrava
os quartos arrumados, com jarros de flores e roupas de cama limpas e
perfumadas. Em todos esses esmeros eu percebia o zelo de Dona Lourdinha, uma
aristocrata de alma generosa e acolhedora, atenta em servir. Sentávamos em
torno da mesa comprida para os cafés da manhã, almoços e jantares que se
estendiam por horas, ocupando a maior parte dos dias. Eu inventariava histórias
em restos de louça da Companhia das Índias, pratos azul borrão e pombinho,
sobras de sucessivas divisões entre os membros da família. Todos expostos em
armários e aparadores com zelo e nobre desdém, o sentimento de um passado
desfeito, lembrado com firmeza e sem saudade.
Houve época em que fui profundamente infeliz. As pessoas questionavam o motivo
de tanta tristeza, minha escolha por caminhar entre as sombras. Nem sempre o
homem escolhe a porta a abrir, ela se abre movida por uma vontade estranha a
ele, e o engole. Foi nesses anos de pouca lucidez que eu frequentei a casa de
Seu Renato e Dona Lourdinha, assiduamente. Os dois velhinhos amáveis, passeando
de mãos dadas entre os canteiros dos jardins, lembravam as figuras dos quadros
de Chagall. A qualquer momento eles poderiam se elevar às alturas do céu,
provocando o riso das cozinheiras ocupadas em assar um pernil de porco e
espantar enxames de moscas.
Ao término das refeições, quando parecíamos mais felizes do que éramos, por
conta da nossa saciedade; depois das conversas jogadas fora, das anedotas e
risos, e das lembranças repetidas; na comoção do café com bolos e licores, seu
Renato Antunes, sonolento e esquecido, o mais leve de todos nós, olhava sério
para os convivas e repetia frases de A festa de Babette, o conto de Karen
Blixen. De verdade, isso nunca aconteceu, mas sempre imaginei. E justamente por
ser imaginação me parece mais real e possível.
Chegará a hora em que os nossos olhos se abrirão e, finalmente, reconheceremos
que a graça não tem fim.
*Ronaldo Correia de Brito


