Requerimento No 4716/2018

TEXTO COMPLETO

Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais,
que seja transcrito nos Anais desta Casa o artigo “Dorany Sampaio”, de autoria
do professor José Luiz Delgado, publicado na edição nº 076 do Diário de
Pernambuco, de 21 de março de 2018.

JUSTIFICATIVA

Dorany Sampaio
José Luiz Delgado*
O Brasil parece hoje um deserto de homens? Ou, muito pior, uma multidão de
patifes da pior categoria instalados nos mais altos cargos da República? Pois
ainda há homens de bem, ainda há políticos decentes, honestos, dedicados. Ou
havia, como esse Dorany Sampaio que acabamos de perder. (De fato, ainda há:
raros, mas há). E isso sempre é uma luz, um alento, uma esperança – por
pequenina que seja.
Dorany era advogado e era político – e foi sério e respeitado numa atividade
como na outra. Advogado, chegou a presidente da OAB pernambucana, naquela que
penso ter sido a melhor fase da história de nossa OAB, quando uma sequência de
notáveis presidentes ajudou a construir a reconstitucionalização do Brasil.
Político, foi fundador do MDB, quando este não era propriamente um partido, mas
uma frente, a frente dos que lutavam pela superação do regime militar.
Continuou fiel ao MDB, ou PMDB, quando, conseguida a reconstitucionalização,
este a rigor não tinha mais sentido de existir, virou ajuntamento de lideranças
estaduais sem qualquer afinação entre elas, até com disputas intestinas – como
essa, vergonhosa, a que se assiste hoje em Pernambuco, quando aventureiros
querem tomar o partido, afastando suas lideranças históricas. E numa atividade
ou na outra, não avançou nos dinheiros públicos, não enriqueceu. Sempre
coerente, correto, idealista. Admirável, exemplar Dorany Sampaio.
Uma única vez tive oportunidade de escrever sobre ele. Foi quando
desentendimentos partidários paroquianos levaram Pernambuco a perder dois
grandes nomes no governo Sarney: Joaquim Francisco, no Ministério do Interior,
e Dorany Sampaio, na superintendência da Sudene. Lamentei, na hora, que nos
privássemos desses dois valores. Quanto a Dorany, escrevi que “a (sua) nomeação
para a Sudene não poderia ter sido recebida senão com os melhores aplausos.
Independentemente de sua cor partidária. Seu sentimento pernambucano e sua
honradez pessoal jamais lhe permitiriam subscrever iniciativas prejudiciais ao
Estado. Tratava-se de pernambucano de bem, alçado a lugar do maior destaque”.
Conto aqui pequeno episódio pessoal, menos como registro autobiográfico do que
como exemplo do procedimento habitual de Dorany. Lá um belo dia recebo
telefonema dele, então presidente da OAB. Queria incluir meu nome numa lista
tríplice a ser enviada à prefeitura para a nomeação do representante da OAB no
Conselho Municipal de Contribuintes (terminei nomeado pelo prefeito Gustavo
Krause). Impressionante é o gesto: Dorany lembrar-se de alguém que não lhe
estava pedindo nada e nada tinha para dar em troca, e sequer fazia campanha
eleitoral dentro da Ordem. Lembrara-se apenas de nome que ele tinha (peço a
Deus que não estivesse muito errado) como decente, honesto, íntegro,
independente, insuscetível a motivações subalternas Este é apenas um caso.
Porque assim era a personalidade constante de Dorany: vendo sempre alto,
querendo sempre o bem, o melhor para a sociedade, querendo fazer o certo,
querendo realmente servir à coisa pública.
Pernambuco pode ficar menor com a morte de Dorany Sampaio. Mas tê-lo tido entre
nós será sempre um orgulho e uma inspiração.
(José Luiz Delgado é professor de direito da UFPE)